Dandaras ressignificam valores civilizatórios durante a aula

A importância da narrativa da trajetória de mulheres negras africanas em África e em Diáspora para que reflitirmos na herança cultural africana.


No período que é compreendido entre os séculos XVI - XIX, que trata das primeiras formas de exploração européia na África, os africanos dispunham de modelos sociais muito variados, de sociedades simples, organizadas em chefaturas, a sociedades complexas, denominadas pelos europeus de reinos e impérios. Conheciam formas específicas de hierarquização social, com divisão sócia do trabalho, instituições próprias de governo, produção e circulação de riquezas na agricultura, pecuária e artesanato, sistemas de troca e de representação de valor nos negócios de médio ou longo alcance, centro administrativos e religiosos bem estruturados. Como, também, as mulheres negras africanas desempenhavam papéis sociais diferentes das mulheres européias.

Essas particularidades foram debatidas pelas alunas do Curso Dandaras – Construindo o Pensamento Crítico e Promovendo Formação Política para Mulheres Negras no RS, durante a primeira aula do módulo História da África e Brasil Colônia, ministrada pelo professor José Rivair Macedo, doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (1993) e professor titular do Departamento de História da UFRGS, no sábado (01/06). “Um exemplo da importância das mulheres nas sociedades africanas são as okinkas. Na sociedade tradicional dos bijagós, de base matriarcal, as mulheres ocupam posição diferencial. Elas são as guardiãs dos lugares dedicados aos espíritos ancestrais, e em momentos de crise ou dissensão assumem o papel de liderança em suas comunidades. A que teve a maior renome chamava-se Okinka Pampa. Governou a Ilha de Orango Grande, pertencente a Guiné Bissau (país da África Ocidental), durante o período de instalação portuguesa, opondo-se pacificamente aos colonialistas a partir de 1910”, exemplifica o professor Rivair.

"Nossa história deve ser contada por nós, para nós", afirma José Rivair durante as aulas. Foto: Maria Helena dos Santos / ASCOM Akanni

O professor, ainda, apresentou outras mulheres negras africanas que foram líderes políticas de seus povos. Como, por exemplo, a Yaa Akyaa Asanthema. Nascida ao sul de Ejisu , próximo a Kumasi em Gana (país da África Ocidental), foi casada com Awosu Kwabena, um dos irmãos do axantiene Osei Bonsu (r.1874 – 1883). Em 1900, liderou a rebelião conhecida como “Guerra do Trono de Ouro” contra o Império Britânico, em nome do seu filho, o axantiene Prempeh I, derrubado do poder em 1893. Após diversos ataques, foi aprisionada e deportada junto com o filho para as Ilhas Seichelles, onde morreu já octegenária.


“Eu trago a história dessas mulheres africanas que foram rainhas, guerreiras e líderes espirituais que conquistaram poder e respeito, expandiram domínios e, combateram invasores europeus e insuflaram coragem em seus povos, para que nós reflitamos que herança cultural africana estamos ressignificando nos dias de hoje. Pensar na mulher negra africana é pensar que estes povos apesar colonialismo e a integração ao sistema capitalista mundial que representavam as condições necessárias para a modernização, existia neles a enorme vontade de autodesenvolvimento que animava o esforço destes povos africanos. Como estamos ressifignificando este esforço de nossas raízes sócio-políticas africanas na sociedade brasileira? Para responder tal pergunta devemos ter inteligência o suficiente para saber que lugar enquanto negro ocupo, ou melhor, que lugar a mulher negra ocupa em nossa sociedade”, instiga o professor uma reflexão individual das alunas diante do cenário social e político brasileiro.

Essa primeira aula tinha como objetivo fornecer a localização no tempo e no espaço das sociedades africanas ao longo da história, com identificação geográfica e contextual das sociedades africanas a partir do Oceano Atlântico no período situado entre os séculos XV-XIX. Como, também, a identificação nas sociedades da Costa do Ouro, do Golfo do Benin, e da área Kongo-Angola, das estruturas socais e políticas, e do papel desempenhado pelas mulheres.


Alunas do Curso Dandaras reunidas com o professor José Rivair Macedo. Foto: Maria Helena dos Santos / ASCOM Akanni

Na segunda aula, realizada no dia 15 de junho, foi abordado o conceito de diáspora africana, com fundamentação teórica e metodológica a partir de obras de Paul Gilroy e Stuart Hall, assim como, foi feita uma discussão do conceito de diáspora para a situação dos povos africanos envolvidos no tráfico internacional de escravos no período dos séculos XV-XIX. Também, foi levantado um histórico das formas de organização política (quilombos; revoltas) e das formas de organização sócio-religiosa (calundus; irmandades) dos africanos escravizados.


Porém, o foco foram as biografias de mulheres africanas em situação de diáspora nas Américas, como, por exemplo, Belinda Royall ou Belinda Sutton (1713-1790), nascida provavelmente no litoral da Costa do Ouro, é provável que tenha pertencido aos povos do grupo lingüístico ioruba. Capturada e vendida como escrava, foi transportada para a colônia britânica em Massachusetts, onde foi comprada pela inglês Isaac Royall – que era professor de Harvard College e integrante da família de plantadores de cana-de-açúcar. Por ocasião da eclosão das guerras de independência, com a fuga do proprietário para Europa, Belinda submete em 1783 uma petição junto às autoridades de Massachusetts, solicitando uma pensão como compensação pelo trabalho de décadas a serviço dos proprietários. Ao final do processo, foi lhe concedida uma pensão de 15 libras e 12 xelins durante um ano, depois estendido por mais três anos. O caso tem sido citado como o primeiro exemplo de um processo bem sucedido de reparação por escravização.

“O exemplo dessas mulheres como Tereza de Benguela, líder do Quilombo do Piolho, que ao ser capturada se pôs muda, morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça, no meio da praça, desse quilombo, em alto poste, onde ficou para a memória e exemplo dos que a vissem, demonstram o medo que o colonizador tinha, e tem, da força da resistência dos nossos povos. Mas, não basta apenas resistir, temos que criar estratégias que vão além da resistência, que demonstrem que temos direitos de existir, pensar e criar”, afirma Rivair.


Texto: Maria Helena dos Santos

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